Verdade Chinesa

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

As Conspirações por trás das Teorias Conspiratórias

Não poderia começar esse texto de outra forma, senão expressando meu sentimento de luto e pesar pela morte do ex-governador de Pernambuco e do candidato a presidência da República, Eduardo Campos. O trabalho dele - tanto como governador de seu estado tanto como Ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula - foi excepcional. Mais do que isso, a importância que o candidato dava ao que deveria ser essencial - a educação - tem de ser ressaltada. No dia anterior ao seu falecimento, assisti a sua entrevista no Jornal Nacional na qual afirmava que os três pilares de seu governo seriam educação, educação e educação. Porque eu não duvido? Porque não acho que fosse mera promessa de campanha? Simples. Porque ele já o fez, durante seus dois mandatos (o segundo não concluído pelo início da campanha presidencial) em Pernambuco, onde fora reeleito com incríveis 83% dos votos. Realmente uma pena que com a política atual tão centralizada, o nome mais forte rumo a despolarização tenha sido perdido. Deixa 5 filhos, o mais novo, com apenas meses de idade e portador da Síndrome de Down. Sinto muito pela família. Sinto também pelos brasileiros. Achei que veria Eduardo Campos, num futuro mais distante, presidente deste país. Me enganei.
Apesar do pesar, acho importante falar sobre uma série de teorias conspiratórias que têm se espalhado pela rede. Amo a globalização e suas facilidades. A própria notícia da morte do pernambucano chegou em questão de horas após a queda do avião. Mas a mesma rede que divulga notícias praticamente em tempo real difama (vários) candidatos a presidência da Republica com teorias conspiratórias que, direta e indiretamente, influenciam no voto de uma parcela do grupo eleitor.
Digo isso porque recebi, no mesmo dia da morte do ex-governador, um SMS com teor supostamente cômico, mas com entrelinhas poderosas. O SMS dava a entender que o acidente, de acidente, não tinha absolutamente nada. O SMS ligava Dilma não só ao acidente de Campos, mas também ao grupo extremista Hamas. Me assustei. Será que não seria culpa dela também a briga pela Crimeia? Foi a única mentira que o desconhecido autor da mensagem esqueceu de contar.
Escrevo não para defender a candidata petista ou para dizer "ela ou seus companheiros petistas jamais fariam isso", porque mesmo tendo ciência de mensalões e desvios, desconheço o quão corrupta, infame e irracional pode ser a política brasileira e a sede de poder de seres humanos. Escrevo apenas tentando ratificar - e agora o faço - de que boatos como esses não devem e não podem influenciar o eleitor brasileiro. E não somente no que diz respeito a votar ou não em Dilma, mas sobre votar ou não em Aécio (já li teorias que creditam a ele a culpa do acidente) e sobre a própria Marina Silva, provável sucessora de Campos na corrida presidencial. Outro fator importante é não deixar a compaixão pelos familiares de Eduardo decidirem o futuro deste país. Campos infelizmente faleceu, mas nós, os vivos, continuaremos a colher o que plantamos e a sofrer com os atos daqueles nos quais votamos. Alguns tucanos estão assustados. Pesquisas internas, realizadas após o acidente, colocam Marina Silva com porcentagem similar a de Aécio. Estamos emocionados, chocados, comovidos e bestificados com o acidente. Mas porque levar a bestificação conosco para as urnas?
Eu sei. É difícil. É difícil não votar com o coração e é difícil não amar teorias conspiratórias. Eu também amo teoria sconspiratória. O que diabos aconteceu com o corpo de Ulysses Guimarães? Teria ACM mandado colocar açúcar na gasolina do helicóptero de Clériston Andrade? Qual a verdade sobre o acidente dele? São respostas que provavelmente jamais teremos. Se eu pensei sobre a possibilidade de Eduardo Campos ter sido assassinado? Pensei. Mas não divulguei como verdade, ou afirmei o ser. Fatalidades acontecem. Ou teria a torcida do Grêmio mandado matar Fernandão? Cuidado. Há muita conspiração por trás da divulgação em massa de teorias conspiratórias. Não deixe que isso afete o seu voto. Vote por escolha sua. Não deixe que, assim como o infeliz destino ceifou a vida de Eduardo Campos, a sua escolha de voto seja, indireta, discreta e sutilmente, ceifada de você.

PS - Não sou do tipo que só porque alguém morre esse alguém vira um santo. Admiro muito Eduardo Campos sim, como tentei deixar claro no texto, mas não concordei nem um pouco com a união política dele a Marina Silva, como você pode ler no texto Enrolados na Rede, publicado meses atrás.
PPS - Estou no último ano do curso, fazendo pré-vestibular e inglês ao mesmo tempo. Peço desculpas por não escrever com a frequência que eu mesmo gostaria... Mas tá muito difícil arranjar tempo pra dormir, quem dirá para escrever. Conto com sua paciência e fidelidade.

domingo, 9 de março de 2014

Se eu quiser beber, eu bebo?

Sou soteropolitana, mas não faço parte do grupo que ama carnaval e sai em todos os blocos. Assim sendo, esse texto não é sobre o sucesso do lepo lepo, ou sobre a saída de Bell do Chiclete com Banana. Nada disso é inconstitucional. Inconstitucional foi, por sua vez, a exclusividade de vendas da cervejaria Schincariol no circuito Osmar, no Campo Grande, e da cervejaria Itaipava no circuito Dodô, na Barra/Ondina.
As duas cervejarias investiram mais de R$ 20 milhões no carnaval de Salvador para obter a exclusividade da venda. Me pergunto que direito tem ACM Neto, sem sequer abrir licitação, de vender o direito dos ambulantes e comerciantes de venderem o seu produto. Mais de 200 mil latinhas de outras marcas foram apreendidas durante a festa, já que isso prejudicava as vendas dos patrocinadores. E não foram só os comerciantes que sofreram com a sanção: o folião que era visto tomando a cerveja proibida também tinha sua cervejinha apreendida.
São tantos os argumentos contra essa exclusividade que fica difícil escolher apenas um. E se no próximo ano a C&A resolver patrocinar a festa? Quem estiver na rua com roupas de outras lojas ficará nu? Parece, a mim, um monopólio das cervejas. Um ato de caráter ditador, mas quem se surpreende?  Assim, que se dane se o folião não gosta de Itaipava. Quem se importa se ele acha que "porque sim" não é  resposta? Netinho não é ditador. Ele jamais se assumiria assim. Ele é criativo. Ele é competente. Enganam-se. Ele é o neto da ditadura em forma de gente.
Não é novidade que nossos direitos básicos a educação, saúde e segurança têm sido negligenciados. O cidadão infelizmente já se acostumou com isso. O argumento do prefeito é de que com o patrocínio no carnaval, sobra dinheiro para investir em outras áreas, como a saúde. Será que realmente veremos este dinheiro que "sobrou" sendo bem utilizado? Faz-me rir. Esta exclusividade mexeu apenas no bolso do ambulante que teve mercadorias apreendidas e dos comerciantes que tiveram empreendimentos legalmente saqueados. Se muitos duvidavam que Neto seguiria os passos ditadores do avô, esta é a prova. A maçã enfim mostrou a que distância caiu da árvore. Não foi muito longe.

sábado, 5 de outubro de 2013

Enrolada na Rede

Acompanhei com bastante interesse o imbróglio de Marina Silva na tentativa de criação do Rede Sustentabilidade. A ex-senadora surpreendeu a todos ao conseguir 20 milhões de votos na última eleição presidencial, e surpreendeu o país novamente hoje (05/10) ao anunciar sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). 
Digo surpreendeu porque poderiam acusar Marina de muitas coisas, mas não de incoerente. A ambientalista abandonou o PT quando achou que este não partilhava mais dos seus ideais e se aliou ao PV, pelo qual disputou a eleição de 2010. Também abandonou o PV, prometendo uma nova opção entre os pólos da política atual, que se concentra em petistas e psdbistas. Marina prometeu uma nova política. Onde está ela? Na aliança com o PSB?
Não nego que deve ter sido uma situação complicada. Marina teve o registro de seu partido negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na quinta-feira, quando o prazo máximo para a criação de um partido que quer apresentar candidato a próxima eleição é neste sábado. A ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula encontrou dificuldade não somente em adquirir as assinaturas necessárias para a criação do Rede Sustentabilidade, mas também na validação destas. Muitos cartórios demoraram na validação e outros invalidaram as assinaturas sem apresentar nenhuma justificativa. Todavia, não estou aqui questionando o processo de criação de partidos políticos no país, ou mesmo a decisão do TSE, com a qual eu concordo. O que questiona-se aqui é a decisão da ambientalista de se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).
Marina deveria ter se mantido fiel no que acreditava, mas não o fez. Se seguisse a ideologia que alega, a acriana teria abdicado participar da próxima eleição presidencial. Mas seu segundo lugar nas pesquisas provavelmente a fez perceber que uma legenda com o PSB de Eduardo Campos (atualmente quarto colocado) lhe cairia muito bem, politicamente falando. Se a candidata queria tanto participar das eleições, porque não escolher um partido menor e menos estruturado? Isso lhe daria algum espaço para desenvolver seus sonhos e ideais. Mas o PSB é mais forte. Uma legenda com Campos, visto os adversários, provavelmente lhe garantirá um segundo turno. Alguém aí quer conversar com o Aécio Neves? 
E é por isso que ideologicamente falando, essa aliança com o PSB é incoerente e contraditória. Diferentemente do PV, o PSB sequer apresenta ideologia ambiental clara, que é um dos focos da acriana. Marina prometia uma nova política e novas opções. Não cumpriu. Apenas uniu-se a mais um partido que, apesar de ter um ou outro grande nome, como o próprio Campos, abandonou a base petista no meio do caminho. 
No fim, o que a ex-senadora oferece com essa filiação é a impressão de que se transformou de opção de voto a apenas mais uma enrolada na rede, que infelizmente não é de sustentabilidade. É a rede da política e dos acordos eleitorais, com as quais imaginou-se que ela não compactuava. Não se decidiu ainda quem é vice e quem é candidato a presidência desta nova legenda. A única certeza que temos, todavia, é a de que o povo brasileiro foi, mais uma vez, enrolado.

sábado, 20 de julho de 2013

Nelson Mandela

Sei que vocês esperavam um texto polêmico quando eu voltasse a escrever. Talvez escreva sobre a vigilância de Obama, talvez não. Talvez escreva sobre a Jornada Mundial da Juventude, talvez não. Todavia, hoje, quero escrever sobre quem realmente mudou algo no mundo positivamente ao invés de falar sobre políticos e sobre como eles sempre acham métodos diferentes para nos roubar. Quero falar de coisa boa, mas não quero falar de Tekpix. Hoje, quero falar de Nelson Mandela.
O sul-africano completou 95 anos há dois dias atrás, e, infelizmente, creio que 96 não serão completados. Sei que podem me dizer que estou sendo pessimista, mas todos sabemos do estado, apesar de estável, crítico da saúde de Mandela. Assim, não quero fazer um texto bonito quando Mandela morrer. É execrável o que ocorre depois que todo mundo morre. Todos viram santos e pessoas de bem. Mas Mandela realmente foi uma dessas pessoas. Então acho justo que seu mérito seja atestado em vida, e não somente em morte. Ele merece.
Não estou dizendo que Mandela é perfeito. Sei muito bem de seu apoio a ditaduras que o auxiliavam no Congresso Nacional Africano (organização criada contra o apartheid). É óbvio que também sei que muitos colegas revolucionários enriqueceram de um dia para o outro. Mas estamos falando aqui de um homem que nunca abandonou a causa pela qual lutou. Nelson Mandela não se chama Lula. 
Apesar de condenado a prisão perpétua, passou 26 anos preso. Nestes 26 anos, permaneceu lutando pela causa em que acreditava. Queria ver uma África do Sul unida, independente de raça. Repito: não estou dizendo que Mandela foi perfeito. Sua vida pessoal foi um caos, o que se reflete até hoje, nas brigas entre os netos e os filhos, que mal esperaram o ex-presidente (Mandiba, apelido carinhoso que recebeu em sua terra natal, presidiu a África do Sul entre 1994 e 1999) morrer para brigar pelo dinheiro. Três casamentos. Dois deles arruinados pela vida política ativa de Nelson, o que o impossibilitava de estar constantemente em casa. Sua mãe morreu achando que ele era um criminoso, já que o visitava na prisão e nunca entendeu pelo quê o filho lutava. 
Foi finalmente solto pela pressão internacional que clamava sua libertação, em 1991. Em 1993, ganhou o prêmio Nobel da Paz e em 1994, a vitória na primeira eleição verdadeiramente democrática do país. Cumpriu seu mandato, que também não foi exemplar, mas que inevitavelmente, deu início a uma nova África do Sul. Uma África do Sul que tem seus problemas sim, mas que aceita brancos, negros, vermelhos e azuis, caso você seja de Avatar. Hoje, aos 95 anos, Mandela é um símbolo de luta e um dos principais nomes do século XX. Quando Mandela morrer, morrerá junto com ele um espírito egocêntrico sim, como pôde ser atestado em alguns momento de sua vida, mas também lutador de modo como talvez jamais tenha se visto. Jamais comparem a África do apartheid com o Brasil da ditadura. Aqui, você não era punido por ser negro e submetido a uma vida miserável apenas por ter nascido com determinada cor e não com outra. Comparar Dilma com Nelson Mandela seria engraçado, se não fosse triste (a comparação chegou a ser feita na campanha presidencial dela em 2010). Quando Mandela não abrir mais os olhos, a África do Sul praticamente morrerá junto com ele. Como disse o próprio Mandela, não há caminho fácil para a liberdade. Todavia, poucas são as pessoas que tem a coragem necessária para trilhá-lo até o fim, independente de tudo. Há dois dias atrás, Madiba completou 95 anos. São 34.675 dias. Continuamos contando com a certeza de que não lhe restam muitos, mas também com a certeza de que ele lutou e irá lutar, do jeito que pode, até o último segundo deles.

ps - Sei que prometi escrever por aqui com mais frequência e vontade não me falta. Mas entrei num ritmo insano de ter que fazer praticamente um relatório por dia, então perdoem-me e não me abandonem. Eu sempre volto.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Monsanto - Entre o agente laranja e o marketing verde

A Companhia Monsanto é uma indústria multinacional de biotecnologia e agricultura. Você pode até não conhecê-la ou não ter ouvido falar dela, mas os vietnamitas conhecem. Foi a Monsanto a responsável pela distribuição do agente laranja, desfolhante utilizado pelos EUA na Guerra do Vietnã, entre 1959 e 1975. Enquanto os vietnamitas conheciam bem a área, os americanos tinham dificuldade com a densa vegetação, o que foi a principal estratégia (se é que pode se chamar isso de estratégia) do pequeno país asiático, que acabou conquistando a vitória. 
Se ela foi barata? Claro que não. Anos depois, foi confirmado altos teores de dioxinas cancerígenas nos herbicidas utilizados no agente laranja. 4,8 milhões de pessoas foram expostas pela guerra promovida pelos Estados Unidos e pela insensibilidade da Monsanto. Crianças pagam, até hoje, o preço de uma guerra que nem viveram. Consequentemente, a incidência de crianças com câncer ou com má formações congênitas no Vietnã é a mais alta de todo o mundo.
Com um passado tão tenebroso, era de se esperar que a Monsanto pagasse suas indenizações e se retirasse do mercado. O governo americano e a Companhia indenizaram soldados americanos contaminados, mas nunca assumiram a responsabilidade pelos vietnamitas. Se retirar do mercado? Nem pensar. 
Ainda assim, esperava um caminho no mínimo discreto da Companhia. Por isso, qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma publicidade verde da Monsanto na Semana Internacional do Meio Ambiente. Faz-me rir. Essa publicidade ridícula da empresa, que de santa não tem nada, tenta apenas encobrir todo o mal já submetido a milhões de inocentes. Como? Com uma suposta preocupação com o meio ambiente e com um mundo sustentável. Essa estratégia de marketing, denominada greenwalsh, seria fofa, se não fosse tão ridícula e irônica. Mil propagandas jamais apagarão o passado da empresa, que deveria ter seguido o próprio conselho. Afinal, não deveria a Monsanto ter cuidado da árvores? E não deveria também não ter metido o pé na jaca? Por fim, antes de tentar ajudar o mundo, seria interessante se a Monsanto ao menos se importasse conosco. Somos pessoas. E são as pessoas que cuidam e que tentam mudar o mundo.

Utopia

"A utopia está no horizonte. Nos aproximamos dois passos, ela se afasta dois passos. Caminhamos dez passos e o horizonte se afasta mais dez. Por mais que caminhemos, jamais alcançaremos. Então para que serve a utopia? Simples. Para caminhar."

Fernando Birri

domingo, 12 de maio de 2013

O triunfo da nulidade

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos do maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e o pior, a ter vergonha de ser honesto."

Rui Barbosa