Verdade Chinesa

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sexta-feira, 17 de julho de 2015

House of Cunha

Talvez não esteja tão atarefada como já estive antes. Enfrentando a terceira greve de professores federais de minha carreira estudantil, eu deveria sim ter tempo livre - ao menos teoricamente. Na prática, a situação porém é outra, e em meio a produção de artigos e a leituras atrasadas que devem ser colocadas em dia, ainda não tive tempo de atualizar House of Cards, da Netflix, e acompanhar o jogo político que levará Frank Underwood a presidência dos Estados Unidos. Do jogo político no qual está o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, porém, não me abstenho. E ouso dizer que ele articula tão bem quanto Frank Underwood e que seus golpes e suas ações em nada envergonhariam o personagem de Kevin Spacey. 
Antes de mais nada, preciso me desculpar. Escrever tudo o que é necessário ser escrito sobre Cunha me demandaria muitas horas e no mínimo 10 postagens diferentes. Por isso, peço perdão por não falar da redução da maioridade penal nem dos seus planos de auxiliar seus patrocinadores de campanha. Hoje, preciso comentar sobre o tão esperado fim do relacionamento entre Cunha e o governo. O clima é de despedida. Só me sinto preparada pra escrever sobre isso depois do play em All by myself, que talvez seja a música que Dilma escuta agora, com a perda de um "aliado" que lhe apoiava apenas em teoria, como sempre fez questão de afirmar e como sempre deixou claro em seus votos na Câmara. 
É por isso que é interessante (e hilário) que agora, revoltado com a delação de Júlio Camargo - que lhe acusa de intimidação e de pedido de propina de 5 milhões de reais - o presidente tente intimidar o governo com uma saída da base que, na prática, já aconteceu faz tempo. Agora, que a ética e o suposto bom nome de Cunha está em jogo, os delatores Júlio Camargo e Youssef são uma tentativa de golpe de Janot contra ele.
Claro que também se começa a questionar os diversos vazamentos da delação premiada do doleiro. Questiona-se agora tudo o que ele já tenha dito, simplesmente porque finalmente associou-se Eduardo Cunha a Operação Lava-Jato. Espero do "paladino da justiça" Sérgio Moro tratamento idêntico ao que foi dispensado a Vaccari Neto. Espero que não haja nenhum tipo de simpatia do juiz para com o peemedebista: graças a Deus, apesar dos dois constantemente ignorarem a Constituição Federal, Moro já divulgou uma nota em resposta a afirmação de Cunha de que ele é dono do país dizendo que não está em seu poder silenciar testemunhas.
Quando perguntado sobre as tentativas de intimidação pelas quais foi acusado, a assessoria do peemedebista afirmou que ele não comenta leviandades. Me pergunto o que pensa a família tradicional brasileira sobre isso. Acusações de intimidação e de ter pedido 5 milhões de reais de propina são leviandades? Talvez agora que ele foi formalmente e politicamente para a oposição, Aécio Neves e ele possam chegar a um consenso de melhor emprego da palavra leviano. 
Enquanto Eduardo Cunha deseja que o governo lamente sua saída da base, eu estaria comemorando. Já há quem o compare a Severino Cavalcanti, presidente da Câmara que renunciou ao cargo por pressão muito menor do que a que enfrenta Cunha agora. Com ou sem impeachment, é a maior vitória da base desde nem me lembro quando. Não é hora de All by myself, é hora de dançar a Macarena. Agora, nos resta pressionar, torcer e assistir TV Câmara. Pode ser que House of Cunha esteja, afinal, ruindo e em seus últimos dias.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O fenômeno Marina Silva

A trágica morte de Eduardo Campos transformou Marina Silva, agora candidata a presidência, em um verdadeiro fenômeno político. As pesquisas do Datafolha veiculadas em 30/08, apontam empate técnico entre Marina e Dilma no primeiro turno e dão apenas 15% dos votos a Aécio Neves. Eu, sendo Dilma e Aécio, estaria preocupadíssima. Aécio porque pode fazer história, negativamente falando. O PSDB vai pelo menos ao segundo turno desde 2002. O auge do fenômeno Marina Silva é, paralelamente, a decadência da campanha presidencial do psdbista, cujas intenções de voto continuam em queda livre. Num eventual segundo turno, Marina contaria com os votos dos eleitores de Aécio Neves, de modo que as pesquisas apontam 10 pontos de vantagem dela sobre a atual presidente. Nem Lula, em meio a todos os escândalos de corrupção, se viu em uma situação tão complicada. Talvez por falta de um nome forte na oposição. José Serra alguma vez foi adversário digno de Lula? É muito interessante, dessa forma, observar que o maior obstáculo do PT nesse momento mais uma vez não vem do partido tucano, e sim de Marina Silva, uma "cria" do próprio partido e a mais nova queridinha do país.
É necessário, no entanto, analisar um pouco mais de perto a suposta nova política que Marina afirma ser. Qual dos seus novos eleitores sabem suas propostas para melhorar a educação? A saúde? A segurança? Um dos meus professores questionou uma colega sobre em quem ela iria votar. Quando ela respondeu Marina Silva, ele logo lhe perguntou o porque. Ela não sabia. A resposta foi de que "ela é muito humilde e gente boa".
Ela não sabia porque Marina é a rainha dos discursos vazios. Cheguei a rir da entrevista dela ao Jornal Nacional, mas, ao contrário do que aconteceu com a de Dilma, não li críticas a ela pela evasividade das respostas. Certa vez, li uma opinião de Ciro Gomes que sempre ressoa na minha mente quando ouço o discurso cheio de frases de efeito que Marina Silva passou a falar. "Tenho pavor de ver a superficialidade irresponsável com que Marina trata todos os assuntos políticos do Brasil". Não poderia concordar mais. Alguém por acaso sabe que somente para cumprir suas propostas de mobilidade urbana a candidata gastaria mais do que é investido em saúde ou educação no país? Não. Mas desde quando as promessas dela precisam ter coerência? Marina não precisa apresentar propostas coerentes porque é a imagem perfeita pra qualquer diretor de marketing vender. Se Dilma agrada somente aos mais humildes e se Aécio só é querido pelas elites, Marina consegue a proeza de agradar gregos e troianos. Para agradar aos mais pobres já é suficiente que ela tenha essa cor mestiça, esse biótipo de sofredora, batalhadora, analfabeta até os 16 anos, perseguida em seu próprio estado por lutar pela causa na qual acredita. É uma bela história de vida, de fato. Mas será que isso deveria ser suficiente para alcançar os votos dos brasileiros? À elite, agrada artistas e intelectuais. É historiadora, psicopedagoga, professora. E pra agradar mais, já lançou um programa de governo similar ao dos tucanos, propondo diminuir gastos do Estado, cortar ministérios e reduzir a ação dos bancos estatais, colocando o poder nas mãos dos bancos privados. 
Há quem compare Marina com Lula, mas os dois são extremamente diferentes. Para aqueles que verdadeiramente conhecem a história brasileira, é impossível não se lembrar de Jânio Quadrosou de Fernando Collor de Melo. Marina é a Caçadora de Marajás. Marina é também a mulher da vassoura.
As similaridades não param por aí. Marina é a "nova política" em oposição a uma velha para formar um "novo Brasil". Collor e Jânio também eram. Os três usaram e abusaram da simpatia para conquistar a aceitação do povo brasileiro. O alagoano e a acriana foram patrocinados pela elite brasileira - no caso de Marina, um dos nomes é a socióloga Maria Alice Setúbal, herdeira do banco Itaú - e pela nojenta mídia brasileira, que sustentou a eleição de Collor nas costas e já começa a dar sinais de que aguentará o peso da de Marina também. 
Eu também tenho pavor da superficialidade, Ciro Gomes. E se Regina Duarte pode dizer do que tem medo, eu também posso. Tenho medo que, por pressão, Marina não aguente o cargo presidencial e o abandone, como fez com o Ministério do Meio Ambiente e como o fez Jânio Quadros em mais uma das coincidências entre os dois, em 1961. Tenho medo que a história se repita, e que assim como a nova política proposta por Jânio e Collor deu errado, essa de Marina dê também. Que tipo de "nova política" é essa, que já começou sendo transportada em jatinho irregular? Marina Silva pode ser fenômeno sim, mas é inegável a incoerência e o discurso inconsistente que a cerca ao mesmo tempo. Evangélica, assumiu o compromisso de legalizar o casamento gay e a adoção de crianças por casais homossexuais. Voltou atrás. Agora, já não apoiará a causa. Não é também contraditório que a ex-ministra do Meio Ambiente, que citava em projeto de lei até verso bíblico na luta contra os transgênicos, tenha afirmado que sua oposição a estes era uma lenda? Mais contraditório ainda é Marina dizer que vai seguir a política econômica de FHC e a política social de Lula. Água e óleo se misturam, caro leitor? Marina promete não se envolver em alianças com os congressistas. Me pergunto como ela aprovará qualquer uma das promessas mirabolantes que tem feito. É preciso que a população brasileira não fuja da verdade. É preciso perceber que o discurso de Marina Silva, quando submetido ao calor de uma análise, é mais inconsistente que manteiga e derrete bem mais rápido que esta embaixo do Sol. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

As Conspirações por trás das Teorias Conspiratórias

Não poderia começar esse texto de outra forma, senão expressando meu sentimento de luto e pesar pela morte do ex-governador de Pernambuco e do candidato a presidência da República, Eduardo Campos. O trabalho dele - tanto como governador de seu estado tanto como Ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula - foi excepcional. Mais do que isso, a importância que o candidato dava ao que deveria ser essencial - a educação - tem de ser ressaltada. No dia anterior ao seu falecimento, assisti a sua entrevista no Jornal Nacional na qual afirmava que os três pilares de seu governo seriam educação, educação e educação. Porque eu não duvido? Porque não acho que fosse mera promessa de campanha? Simples. Porque ele já o fez, durante seus dois mandatos (o segundo não concluído pelo início da campanha presidencial) em Pernambuco, onde fora reeleito com incríveis 83% dos votos. Realmente uma pena que com a política atual tão centralizada, o nome mais forte rumo a despolarização tenha sido perdido. Deixa 5 filhos, o mais novo, com apenas meses de idade e portador da Síndrome de Down. Sinto muito pela família. Sinto também pelos brasileiros. Achei que veria Eduardo Campos, num futuro mais distante, presidente deste país. Me enganei.
Apesar do pesar, acho importante falar sobre uma série de teorias conspiratórias que têm se espalhado pela rede. Amo a globalização e suas facilidades. A própria notícia da morte do pernambucano chegou em questão de horas após a queda do avião. Mas a mesma rede que divulga notícias praticamente em tempo real difama (vários) candidatos a presidência da Republica com teorias conspiratórias que, direta e indiretamente, influenciam no voto de uma parcela do grupo eleitor.
Digo isso porque recebi, no mesmo dia da morte do ex-governador, um SMS com teor supostamente cômico, mas com entrelinhas poderosas. O SMS dava a entender que o acidente, de acidente, não tinha absolutamente nada. O SMS ligava Dilma não só ao acidente de Campos, mas também ao grupo extremista Hamas. Me assustei. Será que não seria culpa dela também a briga pela Crimeia? Foi a única mentira que o desconhecido autor da mensagem esqueceu de contar.
Escrevo não para defender a candidata petista ou para dizer "ela ou seus companheiros petistas jamais fariam isso", porque mesmo tendo ciência de mensalões e desvios, desconheço o quão corrupta, infame e irracional pode ser a política brasileira e a sede de poder de seres humanos. Escrevo apenas tentando ratificar - e agora o faço - de que boatos como esses não devem e não podem influenciar o eleitor brasileiro. E não somente no que diz respeito a votar ou não em Dilma, mas sobre votar ou não em Aécio (já li teorias que creditam a ele a culpa do acidente) e sobre a própria Marina Silva, provável sucessora de Campos na corrida presidencial. Outro fator importante é não deixar a compaixão pelos familiares de Eduardo decidirem o futuro deste país. Campos infelizmente faleceu, mas nós, os vivos, continuaremos a colher o que plantamos e a sofrer com os atos daqueles nos quais votamos. Alguns tucanos estão assustados. Pesquisas internas, realizadas após o acidente, colocam Marina Silva com porcentagem similar a de Aécio. Estamos emocionados, chocados, comovidos e bestificados com o acidente. Mas porque levar a bestificação conosco para as urnas?
Eu sei. É difícil. É difícil não votar com o coração e é difícil não amar teorias conspiratórias. Eu também amo teoria sconspiratória. O que diabos aconteceu com o corpo de Ulysses Guimarães? Teria ACM mandado colocar açúcar na gasolina do helicóptero de Clériston Andrade? Qual a verdade sobre o acidente dele? São respostas que provavelmente jamais teremos. Se eu pensei sobre a possibilidade de Eduardo Campos ter sido assassinado? Pensei. Mas não divulguei como verdade, ou afirmei o ser. Fatalidades acontecem. Ou teria a torcida do Grêmio mandado matar Fernandão? Cuidado. Há muita conspiração por trás da divulgação em massa de teorias conspiratórias. Não deixe que isso afete o seu voto. Vote por escolha sua. Não deixe que, assim como o infeliz destino ceifou a vida de Eduardo Campos, a sua escolha de voto seja, indireta, discreta e sutilmente, ceifada de você.

PS - Não sou do tipo que só porque alguém morre esse alguém vira um santo. Admiro muito Eduardo Campos sim, como tentei deixar claro no texto, mas não concordei nem um pouco com a união política dele a Marina Silva, como você pode ler no texto Enrolados na Rede, publicado meses atrás.
PPS - Estou no último ano do curso, fazendo pré-vestibular e inglês ao mesmo tempo. Peço desculpas por não escrever com a frequência que eu mesmo gostaria... Mas tá muito difícil arranjar tempo pra dormir, quem dirá para escrever. Conto com sua paciência e fidelidade.

domingo, 9 de março de 2014

Se eu quiser beber, eu bebo?

Sou soteropolitana, mas não faço parte do grupo que ama carnaval e sai em todos os blocos. Assim sendo, esse texto não é sobre o sucesso do lepo lepo, ou sobre a saída de Bell do Chiclete com Banana. Nada disso é inconstitucional. Inconstitucional foi, por sua vez, a exclusividade de vendas da cervejaria Schincariol no circuito Osmar, no Campo Grande, e da cervejaria Itaipava no circuito Dodô, na Barra/Ondina.
As duas cervejarias investiram mais de R$ 20 milhões no carnaval de Salvador para obter a exclusividade da venda. Me pergunto que direito tem ACM Neto, sem sequer abrir licitação, de vender o direito dos ambulantes e comerciantes de venderem o seu produto. Mais de 200 mil latinhas de outras marcas foram apreendidas durante a festa, já que isso prejudicava as vendas dos patrocinadores. E não foram só os comerciantes que sofreram com a sanção: o folião que era visto tomando a cerveja proibida também tinha sua cervejinha apreendida.
São tantos os argumentos contra essa exclusividade que fica difícil escolher apenas um. E se no próximo ano a C&A resolver patrocinar a festa? Quem estiver na rua com roupas de outras lojas ficará nu? Parece, a mim, um monopólio das cervejas. Um ato de caráter ditador, mas quem se surpreende?  Assim, que se dane se o folião não gosta de Itaipava. Quem se importa se ele acha que "porque sim" não é  resposta? Netinho não é ditador. Ele jamais se assumiria assim. Ele é criativo. Ele é competente. Enganam-se. Ele é o neto da ditadura em forma de gente.
Não é novidade que nossos direitos básicos a educação, saúde e segurança têm sido negligenciados. O cidadão infelizmente já se acostumou com isso. O argumento do prefeito é de que com o patrocínio no carnaval, sobra dinheiro para investir em outras áreas, como a saúde. Será que realmente veremos este dinheiro que "sobrou" sendo bem utilizado? Faz-me rir. Esta exclusividade mexeu apenas no bolso do ambulante que teve mercadorias apreendidas e dos comerciantes que tiveram empreendimentos legalmente saqueados. Se muitos duvidavam que Neto seguiria os passos ditadores do avô, esta é a prova. A maçã enfim mostrou a que distância caiu da árvore. Não foi muito longe.

sábado, 5 de outubro de 2013

Enrolada na Rede

Acompanhei com bastante interesse o imbróglio de Marina Silva na tentativa de criação do Rede Sustentabilidade. A ex-senadora surpreendeu a todos ao conseguir 20 milhões de votos na última eleição presidencial, e surpreendeu o país novamente hoje (05/10) ao anunciar sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). 
Digo surpreendeu porque poderiam acusar Marina de muitas coisas, mas não de incoerente. A ambientalista abandonou o PT quando achou que este não partilhava mais dos seus ideais e se aliou ao PV, pelo qual disputou a eleição de 2010. Também abandonou o PV, prometendo uma nova opção entre os pólos da política atual, que se concentra em petistas e psdbistas. Marina prometeu uma nova política. Onde está ela? Na aliança com o PSB?
Não nego que deve ter sido uma situação complicada. Marina teve o registro de seu partido negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na quinta-feira, quando o prazo máximo para a criação de um partido que quer apresentar candidato a próxima eleição é neste sábado. A ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula encontrou dificuldade não somente em adquirir as assinaturas necessárias para a criação do Rede Sustentabilidade, mas também na validação destas. Muitos cartórios demoraram na validação e outros invalidaram as assinaturas sem apresentar nenhuma justificativa. Todavia, não estou aqui questionando o processo de criação de partidos políticos no país, ou mesmo a decisão do TSE, com a qual eu concordo. O que questiona-se aqui é a decisão da ambientalista de se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).
Marina deveria ter se mantido fiel no que acreditava, mas não o fez. Se seguisse a ideologia que alega, a acriana teria abdicado participar da próxima eleição presidencial. Mas seu segundo lugar nas pesquisas provavelmente a fez perceber que uma legenda com o PSB de Eduardo Campos (atualmente quarto colocado) lhe cairia muito bem, politicamente falando. Se a candidata queria tanto participar das eleições, porque não escolher um partido menor e menos estruturado? Isso lhe daria algum espaço para desenvolver seus sonhos e ideais. Mas o PSB é mais forte. Uma legenda com Campos, visto os adversários, provavelmente lhe garantirá um segundo turno. Alguém aí quer conversar com o Aécio Neves? 
E é por isso que ideologicamente falando, essa aliança com o PSB é incoerente e contraditória. Diferentemente do PV, o PSB sequer apresenta ideologia ambiental clara, que é um dos focos da acriana. Marina prometia uma nova política e novas opções. Não cumpriu. Apenas uniu-se a mais um partido que, apesar de ter um ou outro grande nome, como o próprio Campos, abandonou a base petista no meio do caminho. 
No fim, o que a ex-senadora oferece com essa filiação é a impressão de que se transformou de opção de voto a apenas mais uma enrolada na rede, que infelizmente não é de sustentabilidade. É a rede da política e dos acordos eleitorais, com as quais imaginou-se que ela não compactuava. Não se decidiu ainda quem é vice e quem é candidato a presidência desta nova legenda. A única certeza que temos, todavia, é a de que o povo brasileiro foi, mais uma vez, enrolado.

sábado, 20 de julho de 2013

Nelson Mandela

Sei que vocês esperavam um texto polêmico quando eu voltasse a escrever. Talvez escreva sobre a vigilância de Obama, talvez não. Talvez escreva sobre a Jornada Mundial da Juventude, talvez não. Todavia, hoje, quero escrever sobre quem realmente mudou algo no mundo positivamente ao invés de falar sobre políticos e sobre como eles sempre acham métodos diferentes para nos roubar. Quero falar de coisa boa, mas não quero falar de Tekpix. Hoje, quero falar de Nelson Mandela.
O sul-africano completou 95 anos há dois dias atrás, e, infelizmente, creio que 96 não serão completados. Sei que podem me dizer que estou sendo pessimista, mas todos sabemos do estado, apesar de estável, crítico da saúde de Mandela. Assim, não quero fazer um texto bonito quando Mandela morrer. É execrável o que ocorre depois que todo mundo morre. Todos viram santos e pessoas de bem. Mas Mandela realmente foi uma dessas pessoas. Então acho justo que seu mérito seja atestado em vida, e não somente em morte. Ele merece.
Não estou dizendo que Mandela é perfeito. Sei muito bem de seu apoio a ditaduras que o auxiliavam no Congresso Nacional Africano (organização criada contra o apartheid). É óbvio que também sei que muitos colegas revolucionários enriqueceram de um dia para o outro. Mas estamos falando aqui de um homem que nunca abandonou a causa pela qual lutou. Nelson Mandela não se chama Lula. 
Apesar de condenado a prisão perpétua, passou 26 anos preso. Nestes 26 anos, permaneceu lutando pela causa em que acreditava. Queria ver uma África do Sul unida, independente de raça. Repito: não estou dizendo que Mandela foi perfeito. Sua vida pessoal foi um caos, o que se reflete até hoje, nas brigas entre os netos e os filhos, que mal esperaram o ex-presidente (Mandiba, apelido carinhoso que recebeu em sua terra natal, presidiu a África do Sul entre 1994 e 1999) morrer para brigar pelo dinheiro. Três casamentos. Dois deles arruinados pela vida política ativa de Nelson, o que o impossibilitava de estar constantemente em casa. Sua mãe morreu achando que ele era um criminoso, já que o visitava na prisão e nunca entendeu pelo quê o filho lutava. 
Foi finalmente solto pela pressão internacional que clamava sua libertação, em 1991. Em 1993, ganhou o prêmio Nobel da Paz e em 1994, a vitória na primeira eleição verdadeiramente democrática do país. Cumpriu seu mandato, que também não foi exemplar, mas que inevitavelmente, deu início a uma nova África do Sul. Uma África do Sul que tem seus problemas sim, mas que aceita brancos, negros, vermelhos e azuis, caso você seja de Avatar. Hoje, aos 95 anos, Mandela é um símbolo de luta e um dos principais nomes do século XX. Quando Mandela morrer, morrerá junto com ele um espírito egocêntrico sim, como pôde ser atestado em alguns momento de sua vida, mas também lutador de modo como talvez jamais tenha se visto. Jamais comparem a África do apartheid com o Brasil da ditadura. Aqui, você não era punido por ser negro e submetido a uma vida miserável apenas por ter nascido com determinada cor e não com outra. Comparar Dilma com Nelson Mandela seria engraçado, se não fosse triste (a comparação chegou a ser feita na campanha presidencial dela em 2010). Quando Mandela não abrir mais os olhos, a África do Sul praticamente morrerá junto com ele. Como disse o próprio Mandela, não há caminho fácil para a liberdade. Todavia, poucas são as pessoas que tem a coragem necessária para trilhá-lo até o fim, independente de tudo. Há dois dias atrás, Madiba completou 95 anos. São 34.675 dias. Continuamos contando com a certeza de que não lhe restam muitos, mas também com a certeza de que ele lutou e irá lutar, do jeito que pode, até o último segundo deles.

ps - Sei que prometi escrever por aqui com mais frequência e vontade não me falta. Mas entrei num ritmo insano de ter que fazer praticamente um relatório por dia, então perdoem-me e não me abandonem. Eu sempre volto.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Bons ladrões

O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera. [...] Não são só ladrões, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. 
Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. 
Pe. Antônio Vieira


Não tenho como colocar aqui os nomes de todos os políticos brasileiros, conhecidos também como bons ladrões. Pra quem não sabe, o Senado Federal possui 81 representantes. A Câmara dos Deputados 513 (!). O número de vereadores varia de cidade para cidade, de acordo com o número de seus habitantes. Há ainda prefeitos, governadores, suplentes e assessores. Deixo a você, leitor, o texto de Vieira e a decisão de pensar nos bons ladrões que quiser. Comente, cite seus nomes. Mas saiba, desde já, que há bem mais ladrões do que nossas prisões jamais poderão suportar. E elas estão cheias de piratas.